sábado, 21 de junho de 2008

FICHAMENTO: “A Negação do Holocausto como Tema de Discussão” - Dietfrid Krause-Vilmar

O autor deste artigo fala sobre o Negacionismo, corrente que nega o Holocausto em diferentes níveis, questionando sobre a necessidade de se preocupar e estudar esse tema. Responder se de fato é necessário se ocupar de forma intensa e quase científica com essa questão é um tanto quanto controverso, mas o autor considera ser importante se ocupar da negação dos assassinatos em massa pelo fato de que muitas pessoas, em vista à atrocidade e horror, não conseguem acreditar que o ser humano seja capaz de tamanha barbaridade. E em segundo lugar, acredita numa fragilidade da sociedade que se mostra “suscetível a idéias aberrantes” (palavras da historiadora norte-americana Deborah Lipstadt).
A negação pública dos crimes nazistas surgiu primeiramente na França, indo mais tarde para outros países da Europa e para o s EUA. O que fizeram inicialmente foi relativizar os relatos das testemunhas da época. As primeiras negações que repercutiram amplamente na opinião pública foram de Paul Rassinier, incluindo a afirmação de que os sobreviventes dos campos de concentração exageravam em suas declarações sobre o que passaram enquanto prisioneiros.
Dez anos mais tarde, começaram a negar o extermínio, fazendo uso inclusive de investimentos empíricos. Fatos como: o número de pessoas assassinadas, as técnicas usadas no extermínio, documentos e figuras históricas que foram apresentados, os locais dos campos de morte e a existência das câmaras de gás foram negados. Os negacionistas se colocaram em confrontações em nível jurídico, que inicialmente os beneficiavam pelo impacto que causavam na opinião pública, mas com tempo passaram a evitá-las, pois ocasionavam condenação dos negadores e consequentemente prisões por vários anos.
O cerne das afirmações consiste na negação dos assassinatos em massa dos judeus europeus. Mas essa relativização engloba uma série de assuntos em diversos níveis, o autor descreve cada um deles.
O revisionismo tornou-se uma rede internacional de publicações, simpósios e etc, incluindo o intenso uso da internet.
O autor também descreve as objeções e os níveis de argumentação dos negacionistas, dentre essas descrições destaca-se a riqueza de detalhes com que fundamentam seus argumentos, mas que, no entanto, são descontextualizados. Usam documentos isolados como fundamentais em suas afirmações, mas que são altamente contestáveis. Fala também sobre os problemas existentes nas fontes históricas, mas que mesmo assim, a partir delas não se pode negar o extermínio de judeus, o papel da Alemanha da II Guerra, dentre outros fatos verídicos que eles tentam refutar.
Finalmente, Vilmar fala da importância de se contrapor a essas negações com argumentações cientificamente fundadas, tendo em vista que muitas pessoas que não presenciaram as atrocidades nazistas, nem viveram essa época, se sentem inseguras e acabam por considerar os questionamentos levantados e disseminados pelos revisionistas.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

FICHAMENTO: “Sol Negro” – Nicholas Goodrick- Clark

Em sua conclusão o autor Goodrick-Clark aponta para o ressurgimento da extrema-direita aliado aos cultos arianos e ao nazismo esotérico, principalmente nos EUA e Grã-bretanha. Mas esclarece que tal fenômeno não se esgota em si só, na verdade se afirma nas políticas de identidade.
Com a histórica segregação e racismo direcionados aos negros, grupos étnicos exigem políticas governamentais de vantagens e proteção à minoria, como assim se auto-identificam. A partir do momento em que essas exigências são atendidas, práticas de restrições aos brancos começam a ocorrer alimentando o ódio entre os que consideram como raça superior.
Apesar da opinião liberal desses países ser anti-racista, a política ocidental de proteção a um grupo étnico marginalizado alimenta a concepção de raça como uma categoria legítima de identificação grupal.
A ideologia dos grupos de cultos arianos se mostra mais difusa que as do nacional-socialismo, isso se torna, portanto, um alerta, pois o que vemos crescer é um problema sério de imigração vinda dos países do Terceiro Mundo. À medida que os EUA e a Inglaterra recebem esses imigrantes, a intolerância ao multiculturalismo aumenta, fortalecendo a extrema-direita. Essa situação aliada ao crescimento da ideologia ariana pode surtir efeitos perigosos.

O autor faz de fato um alerta:

“Não temos como saber o que reserva o futuro para as sociedades multiculturais do Ocidente, mas a experiência não deu muito certo na Áustria-Hungira, na União Soviética e na Iugoslávia. Os desafios do multirracialismo nos Estados ocidentais liberais são ainda maiores, e é evidente que a ação afirmativa e o multiculturalismo estão levando a uma hostilidade ainda mais difusa contra o liberalismo. De um ponto de vista retrospectivo de um futuro potencialmente autoritário em 2020 ou 2030, esses cultos arianos e o nazismo esotérico podem ser documentados como sintomas iniciais de grandes mudanças desestabilizadoras nas democracias ocidentais da atualidade.” (pág. 401 1º§).

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Resenha do livro -PASSO DE CARANGUEJO - Günter Grass

Günter Grass é um escritor alemão nascido em 16 de outubro de 1927 na cidade de Danzig. Artista não só ligado à literatura, mas também à escultura e ao teatro. Em 1999 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Participou da juventude nazista na SS e em 45, ferido, foi preso na Tchecoslováquia sendo liberto no ano seguinte. Atualmente, de ideais políticos de esquerda, critica e condena o passado nazista da Alemanha, ao qual aderiu na juventude. Suas obras são alvos de grande polêmica.
Passo de Caranguejo é um romance com uma narrativa expressa no próprio título. Com vários cortes temporais se interligando faz-se necessário avançar e recuar em seu raciocínio. Tal característica é atribuída ao personagem central e narrador do livro: Paul Pokriefke, um jornalista, falido, que sempre se põe em cima do muro, indo sempre de viés, avançando e recuando, como um caranguejo, para avançar mais ainda em busca da verdade.
O livro relata a história do naufrágio do navio Wilhelm Gustloff, durante o qual nasce Paul, e de suas repercussões em sua família, mais especificamente em três gerações: sua mãe, ele próprio e seu filho. Traz como pano de fundo um relato histórico da II Guerra Mundial, alertando sobre o neonazismo que podemos observar atualmente, principalmente na Europa, e o anti-semitismo que o acompanha.
Paul Pokriefke é um jornalista alemão de mãe e avós alemães e que se considera um fracassado, profissionalmente e pessoalmente. Em um de seus acessos á internet, descobre um site que o intriga bastante: www.martir.de. Descobre que se trata de um site relacionado a neonazistas: Associação dos Camaradas de Schwerin. No entanto, continua intrigado e busca saber a que mártir ele se refere. Descobre então que se trata de Wilhelm Gustloff, representante do partido nazista na Suíça, de orientação esquerdista, e que em 1936 é assassinado por um estudante de medicina judeu, David Frankfurt, em sua própria casa.
O partido nazista, para “agraciar” seus trabalhadores e promover descanso mental e divertimento promovia excurssões pela a Europa a bordo de navios construídos para esse fim. Eram os famosos cruzeiros da Kdf (Kraft durch Freude – alegria pela força) uma associação nazista. Um desses navios foi batizado com o nome de Wilhelm Gustloff , o mártir a quem o site reverenciava com tons saudosistas. Em 1945 ocorre um incidente. Em meio à guerra, o navio já perdera seus fins de diversão e finalmente, após várias utilidades, se torna um navio de fugitivos e de soldados feridos com avanço das tropas aliadas na Alemanha. Dentre os fugitivos encontrava-se Ursula, mais conhecida como Tulla, a mãe de Paul que se encontrava grávida dele. No dia 30 de janeiro, o navio e atingido por três torpedos vindo de um submarino russo comandado por Alexander Marinesko. Mas não era um navio inimigo, estava repleto de fugitivos inocentes. Naquela noite, Tulla dá à luz Paul Pokriefke, que nunca soube quem foi seu pai.
Após a guerra, com a divisão da Alemanha, Paul deixa a casa de sua mãe, na parte oriental, e passa a viver na parte ocidental, casa-se com Gabi e tem um filho chamado Konrad. Separa-se de sua mulher e não tem um bom relacionamento com seu filho, que acaba se apegando mais à sua avó Tulla. Esta, uma mulher de orientações convictas, admiradora de Stálin, obviamente de orientação política de esquerda, sempre se remetera ao seu passado, falava sempre de sua sobrevivência ao naufrágio, das maravilhas que a Kdf proporcionou ao povo alemão insistia que seu filho registrasse, escrevesse sobre a história de seu nascimento que obviamente faz parte da história mundial. Sempre hesitante Paul considera sua história um fracasso, maldizia a data de seu nascimento, coincidentemente a mesma data da ascensão ao poder do Partido Nazista na liderança de Hitler, 30 de janeiro, porém 1933. Sua própria mãe o chamava de fracassado e depositava sua esperança em Konradezinho, como chamava seu neto, esperava que ele sim relatasse ao mundo essa história. O que de fato aconteceu.
Em sua busca em descobrir o que estava por trás desse site, cujo relato intimamente se ligava à sua fracassada história de vida, participa de chats onde começa a perceber que não se tratava de um grupo neonazista, mas desconfia de que por trás disso tudo existe um internauta solitário que sabe em detalhes como se deu a tragédia. Como que em disputa, surge no chat David, que fala em nome dos judeus e passa a rebater as afirmações de Wilhelm, o nome com que o internauta solitário se apresenta. Entre debates ferrenhos, Paul percebe com que riqueza de detalhes os jovens relatam sobre o assassinato de Wilhelm, o naufrágio do navio, a perícia de Marinesko, que em consenso, ambos elogiam, dentre outros fatos históricos relacionados. Paul desconfia e confirma a sua desconfiança de que aquele jovem que reivindica a restauração do monumento dedicado ao líder nazista na Suíça, que o reverencia, prega valores nazistas, ressalta as viagens sem classes da Kdf, e fala com discurso anti-semita é seu filho Konny, como também era conhecido Konrad. Não se tratava da Associação dos Camaradas Schwerin, grupo de skinheads, que por um momento apoiava seu filho, mas que depois de um discurso de Konrad em uma de suas reuniões, quando elogiou o russo Marinesko, foi perseguido pelos jovens arruaceiros e violentos. Paul procurou ajuda com Tulla, que dera de presente para Konrad o computador com o qual se aprimorava na tecnologia moderna e espalhava pelo mundo suas idéias, e com sua ex-mulher Gabi, mas nenhuma das duas o ouviu, disseram que era tarde para que Paul manifestasse preocupações com seu filho distante.
Mais à frente, a rivalidade dos dois jovens no chat misturava-se a uma possível amizade, pontos em comuns como o gosto pelo ping-pong. “David” e “Wilhelm” marcam um encontro, Konrad mostra a cidade para “David” e vão para o lugar que seria o principal destino, o mausoléu de Wilhelm. Konrad saca uma pistola russa e mata “David”. Assim como o assassino de Wilhelm, David Frankfurt que acreditava cumprir seu dever de judeu, Konrad acredita cumprir seu dever de alemão. Vai a julgamento e lá descobre que o jovem que assassinou se chamava Wolfgang Streplin, e que nem judeu era, seus pais não eram judeus, seu pai inclusive era filho de pastor protestante. Konrad é condenado a 7 anos de cadeia, na prisão recebe visitas de sua mãe, de sua avó, de sua namorada Rosi e de seu pai, com quem começa a estabelecer um melhor diálogo. E finalmente, Paul novamente descobre um site que lhe chama a atenção: www.camarada.konrad.pokriefke.de , agora cultuam seu filho, cujos ideários e atitudes deveriam servir de exemplo. E conclui que isso nunca vai acabar.
Durante todo o trajeto do livro ele questiona seu papel de pai, relacionando à sua atitude “passo de caranguejo”, sempre de viés, nunca muito direto, o distanciamento de seu próprio filho.

Através dessa narrativa, um tanto quanto difícil de acompanhar até que se adapte ao se ritmo, Günter Grass busca entender os motivos que podem levar um jovem, que não passou pela II Guerra Mundial, mas que ouve sobre suas tragédias, a tomar posições de extrema-direita. Konrad é um personagem que ao mesmo tempo em que nutre ideais socialistas, influenciado por sua avó, prega um nacionalismo intenso. O autor parte do argumento de que a convivência familiar pode ser uma das causas para isso, colocando-a como um fator primordial, principalmente quando trata da carência da figura paterna. Atualmente, com a internet, é muito mais fácil e eficaz a proliferação do ideal fascista, dentre outros. Passo de Caranguejo é um alerta para o mundo, pois apesar de ser um romance, traz uma realidade atual. Movimentos neonazistas crescem, jovens se tornam adeptos e espalham sua idéias pela rede. É responsabilidade dos pais acompanhar os passos de seus filhos e preencher as suas eventuais faltas.